"A
filha do samba"
Ela vem de uma geração de cantoras que valoriza não só
a postura e a interpretação, mas também, o repertório.
Faz com precisão quase que cirúrgica a escolha das músicas:
ora pela letra, ora pela melodia. Sua intenção é a mais
clara possível: levar ao público o que ele gosta, que fatalmente
passa pela melodia de fácil assimilação, tipo pérolas
melódicas de um Nelson Cavaquinho. Seu repertório inclui também
o biscoito fino que os marketeiros de plantão insistem que o povo não
entende e não gosta. Ledo engano, ela prova justamente o contrário.
O povo gosta, só não tem acesso e não ouve mais no rádio
determinados ícones do nosso cancioneiro popular. Nestes dez anos de
carreira, Eliane Faria vem desfolhando o bem-me-quer de compositores essenciais
à música brasileira: Antônio Maria, Nei Lopes, Wilson Moreira,
Paulo César Pinheiro, Dolores Duran, Dona Ivone Lara, Herivelto Martins,
Guilherme de Brito, Mauro Duarte, Babaú da Mangueira e Ataulfo Alves,
entre tantos outros desse quilate. Também pudera!, criada nas rodas de
choro de Botafogo, capitaneadas por seu avô César Faria e por Jacob
do Bandolim, só iria desaguar numa intérprete do choro “Dono
de ninguém” (Maestro carioca). No mesmo bairro, seu padrinho Mauro
Duarte organizava as rodas de samba as quais a menina também freqüentava.
Fácil interpretar um samba quando se têm nas veias os glóbulos
melódicos necessários que sempre lhes deram à imunidade
à certa mesmice de mercado. Seus primeiros shows já preconizavam
o caminho musical, a começar pelo padrinho Djavan e pelo repertório
que incluiu composições de Paulinho da Viola, não por ser
seu pai, mas por sua posição de destaque no Olimpo de compositores
brasileiros, ao lado de Noel, Chico, Tom e Wilson Batista. Interpreta “De
conversa em conversa” (Haroldo Barbosa e Lúcio Alves) com mesma
leveza de um samba-enredo do porte de “Ilú Ayê” (Norival
Reis e Cabana) e outros na avenida defendendo o panteão do Paraíso
do Tuiutí. Compôs com vários parceiros letras e melodias
que trazem suas marcas e um pouco de seu sangue – feito as três
filhas que gerou - a arte seguindo os passos da vida e vice-versa. Atenta ao
novo e ao tradicional, percebe que pode haver uma troca profícua para
os dois lados e direciona seu caminho a tomar, num Brasil tão difícil
onde muita gente se vende por um lugar ao sol e outros vão até
de graça. Sua carreira é permeada por encontros notáveis
com Elza Soares, Délia Fisher, Beth Carvalho, Ademilde Fonseca, Jotinha
Moraes, Rildo Hora, Dona Ivone Lara, Velha Guarda da Portela, Martinho da Vila
e tantos outros com os quais dividiu shows e um pouco do dia-a-dia em viagens
nacionais e internacionais. Participou de algumas coletâneas e em seu
primeiro disco solo, “Alma feminina”, trouxe um pouco de sua vivência
e preferência musical. Dificilmente uma cantora iniciante consegue impor
sua vontade e fazer um disco do jeito e da forma que quer. Só mesmo que
tem a régua e o compasso da própria carreira o consegue. Eliane
Faria produziu “Alma feminina” e conseguiu o resultado por ela esperado.
Primeiro disco e além de tudo ao vivo, não é pra qualquer
um e principalmente cantora! Tem que se estar muito determinado para tal feito.
Só isso fala por si. O resto é conversa fiada e Eliane Faria não
perde tempo. Bem lhe cabe o verso do poeta Torquato Neto: “Só quero
saber o que pode dar certo, não tenho tempo a perder”. Seus novos
projetos estão prenhes de determinação e atitudes insólitas,
pois é disso que o artista vive: de sonhos e realizações.
Sonhos sonhos são, até que viram realidade. E novos sonhos virão
de outros discos e novos filhos, de uma vida sempre melhor.